Quando chegou em casa, Sabrina já estava dormindo. Gustavo pensou, então, que deveria passar mais tempo em casa. Fazia já alguns dias que não conversava com sua esposa: sempre chegava tarde, e ela já estava dormindo, e saía cedo, e ela ainda não acordara.
Tirou a roupa do trabalho, tomou um banho e vestiu o pijama. Sentou-se na cama e ficou observando sua bela esposa deitada, imóvel, sobre o leito, com sua camisola de cetim florida, a mesma que usava todas as noites. Deitou-se a seu lado e adormeceu.
No dia seguinte, acordou cedo como sempre. Estranhou o fato de Sabrina não reclamar do despertador, mas não pensou muito sobre isso. Trocou de roupa para ir ao trabalho. Percebeu que a pilha de roupa suja aumentava a cada dia - apenas com suas roupas - mas, como isso era preocupação de Sabrina, não mais pensou nisso.
Foi para o trabalho e enfrentou mais um dia estressante de trabalho, para, ao final do dia, encontrar a mesma Sabrina adormecida com a mesma camisola florida, na mesma posição em sua cama.
Essa mesma história se repetiu no dia seguinte e no outro. Na quarta noite, durante o banho, o telefone tocou. Gustavo pediu que Sabrina atendesse, mas ela continuava impassível. Ele, então, ao sair do banho, perguntou-lhe porque ela não atendera. Ela continuava imóvel.
Ele aproximou-se dela e sentiu-lhe a face, para ver se ela parecia ter febre, mas sua testa estava gélida como o mármore. Quis sentir-lhe o pulso, mas não o encontrava... Apavorado, chamou uma ambulância, que chegou rapidamente. Os pára-médicos entraram no quarto e, antes mesmo de ver a mulher, disseram a Gustavo que, a julgar pelo cheiro, ela parecia já ter morrido há alguns dias.
Só então, Gustavo refletiu sobre o que ocorrera. Como chegaram ao ponto de ter tão pouco contato e diálogo. No início de seu casamento, não havia um só dia em que não se falavam, não se beijavam. Os problemas, o trabalho, alguma coisa aconteceu e afastou o casal de tal modo que nem a morte foi percebida. Não é porque estava morta que Sabrina não falava com Gustavo quando ele chegava do trabalho, ela agia dessa forma havia alguns anos. Ele se acostumou ao fato de ela fingir estar dormindo para não falar com ele e respeitou esse silêncio. Não era maldade, era a certeza de que, se se falassem, discutiriam. E ambos já estavam cansados de discutir todas as noites.
Gustavo, por menos que visse sua esposa, amava-a mais que qualquer coisa. Sabrina também o amava, mas não suportava mais a ausência do marido e a falta de diálogo entre eles. No fim das contas, ela morreu sem que um pudesse dizer ao outro tudo aquilo que ficara esquecido ao longo dos anos, tudo o que era importante e não era dito. Tudo o que ficara escondido por trás das palavras rudes, das ofensas e dos gritos.
Por algumas noites, Gustavo acreditou estar tudo como sempre esteve. Por algumas noites, Sabrina estava lá e isso lhe dava segurança. Mas, só segurança não é o bastante. Faltava algo naquela Sabrina, faltava o que Gustavo mais apreciava nela: a vida. Por algumas noites a mais, Sabrina viveu sem ter vivido e isso foi o suficiente para Gustavo refletir sobre sua vida, sua esposa e a saudade que ele sempre sentiria dela.
sábado, 8 de dezembro de 2007
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