Joana vinha dirigindo por uma estrada. Era noite. Ela já conhecia o caminho de cor. Todas as noites pegava aquela estrada para voltar para sua casa. Não havia mais ninguém por perto, ninguém mais em seu carro, nenhum outro carro à vista, nenhuma vivalma caminhando pela calçada (afinal, quem caminha pelas calçadas de noite nas cidades grandes?)
Como demoraria a chegar em casa, começou a analisar sua vida até aquele instante. Será que tomara as decisões corretas? Será que sempre pegou o melhor caminho? Será que valia a pena aquele trabalho estressante pelo qual tanto lutara?
Percebe o quanto afastou as pessoas à sua volta. Mal vê sua família, pois sempre chega em casa tarde e sai cedo para o trabalho, pois sempre quis uma bela e grande casa afastada do centro da cidade, para que as crianças pudessem brincar na rua. Trabalha o tempo inteiro sob pressão de todos os lados, (mas, afinal, ela lutou tanto para ser a editora-chefe daquele jornal, ela deve aguentar pressão).
Pensa nos amigos de há tantos anos. "Quanto tempo faz que não os encontro?, que não ligo para saber como estão e o que há de novo com eles? Aposto que alguém deve ter uma doença de que eu não sei, ou está para se separar." Pensa no casamento que está em crise, porque ela e Fernando quase não se vêem e isso lhes dá pouco tempo para se lembrarem de como é bom amar alguém. "Aposto que o Fernando está tendo um caso com outra! Deve ser aquela secretária nova, loura, toda bonitona. Se ele soubesse como os homens ainda me desejam, talvez não olhasse para as outras..."
Nunca estava ansiosa para chegar em casa. Nunca sentia vontade incontrolável de rever seus dois filhos, que, segundo ela, "eram deslumbrados, achavam que podiam fazer tudo e só se metiam em encrenca. Qualquer hora dessas, o Bruno iria para a prisão e a Juliana seria mãe solteira". Invariavelmente pensava isso naquela estrada.
Após mais quinze minutos, no entanto, estacionava na frente de casa. Era recebida por Fernando, que cozinhara seu prato favorito, medalhão ao molho funghi e arroz com aspargos. Bruninho e Ju, de 7 e 5 anos respectivamente, também vinham à porta receber o abraço carinhoso da mãe. Ao entrar em casa, encontra um jarro com rosas, que seu marido compra todos os dias para alegrar a casa. Vê, na secretária eletrônica, as mensagens de seus amigos de faculdade, confirmando o encontro semanal no clube.
A verdade é que Joana, que escrevia sobre tragédias todos os dias para seu jornal, conseguia criar tragédias para explicar tudo ao seu redor. Conseguia envolver a tudo e a todos em uma rede de intriga, tragédia e traição, como nenhum escritor de novelas jamais pôde. Anos mais tarde, quando contou isso para Juliana, disse que era para amenizar a saudade que cortava seu coração naquela estrada deserta. Era para que o tempo passasse mais rápido e para que ela logo encontrasse os braços e lábios de Fernando, único homem a quem amara e com quem foi feliz por mais de trinta e cinco anos.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
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2 comentários:
Hum... Interessante... Quem é Joana?
Não sei exatamente. Só sei que é uma mulher meio neurótica que trabalha como editora chefe em algum grande jornal, ou algo parecido...
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