segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Seguir em frente, sem olhar para trás

A saída

Gabriela estava só em uma cidade desconhecida. Deixara para trás a família, já desagregada antes disso, os amigos e o namorado, Daniel. Partiu em busca de um futuro melhor, de uma chance de construir sua própria vida e, finalmente, ser alguém.

Era a primeira vez que saía de casa. A adaptação foi muito difícil. Tudo lhe era estranho. Demorou a acostumar-se aos nomes das rua, ao tipo de gente, aos novos hábitos, ao novo apartamento, ao engarrafamento, à rotina nova que em nada lembrava a antiga e, principalmente, à saudade e ao vazio que nunca sentira antes.

Tentou construir suas raízes na nova cidade, mas logo percebeu que as suas já eram por demais profundas e não havia meios de transplantá-las. Não obstante, tentou se habituar a essa nova vida. Fez amizades no trabalho e essas lhe bastavam. Saía apenas com esses, não tinha necessidade de mais.

Esses amigos, na verdade, alguns deles tornaram-se confidentes. Era a eles que Gabriela falava da saudade que sentia da família e de Daniel. Ela tentava substituir a ausência dos que ficaram com os que chegaram agora. Logo, ela percebe que isso não basta. Resolve juntar dinheiro e voltar para sua cidade, não para sempre, mas para rever a vida que ficara para trás e matar um pouco da saudade que lhe assolava o coração e impedia seu sono tranqüilo.

A volta

Volta à sua cidade, mas percebe que tudo mudou. Na verdade, tudo está igual ao que sempre foi, ela é que mudou e achou que seu mundo mudaria também. Sua família, que ela pensava que estaria diferente, como a de seus amigos da nova cidade, continuava com os mesmos problemas, com a mesma desagregação. Daniel estava diferente do que Gabriela esperava. Ela mudara tanto na nova cidade, com os novos amigos e com a nova vida, que logo percebeu o quanto eles se tornaram incompatíveis. Seus amigos antigos lhe pareciam todos iguais e igual ao que sempre foram. Nenhuma novidade, nenhuma aventura, nenhuma ambição. Tudo sempre igual, quando ela queria sempre mais.

A revolta

Tomou a única decisão que lhe pareceu certa no momento: cortou suas raízes e decidiu criá-las em outro lugar. Deu adeus definitivo a tudo e a todos na cidade antiga. Esqueceu-se da vida que lhe precedera e adotou a nova cidade como a SUA cidade. Arranjou um novo amor, que lhe parecia muito melhor que Daniel, de quem ela mal lembrava o nome. Adotou seus novos amigos como os únicos.

Como a boa filha que sempre foi, ligava para seus pai todo domingo, por obrigação. Foi também por obrigação que se impunha voltar para casa no Natal, mas só durante três dias por ano. Os outros, ela reservava para sua vida nova, cheia de aventura, entusiasmo, emoção e amigos.

A reviravolta

Aos longo dos anos, porém, sua nova vida lhe pareceu um pouco vazia. Já estava casada com Ricardo, mas ainda sentia um tremor por dentro ao ouvir o nome Daniel. Seu trabalho, que, de início, ela adorava, começou a parecer-lhe vazio de significado. Seus amigos mostraram sua verdadeira e cruel faceta.

Começou com uma possibilidade de promoção. Ao saber dessa chance pelo chefe da empresa, contou logo aos seus amigos, os mesmo que eram seus confidentes anos atrás. Ao invés de eles torcerem por ela, como ela pensou que seria, eles se mostraram invejosos de seu sucesso. Logo Gabriela descobriu, que esses "amigos" estavam querendo essa promoção também. O problema foi quando eles não apenas queriam a promoção, como faziam de tudo para que ela não a ganhasse. Ricardo, quando procurado por Gabriela, que precisava de seu apoio e carinho, recusou-se a ajudá-la, pois estaria por demais ocupado naquela noite.

Naquela noite, ela chegou em sua casa grande e bem decorada e sentiu-se sozinha, como quando chegara na cidade pela primeira vez. Olhou à sua volta e não reconhecia mais seu quarto azul claro com detalhes amarelos, pelo qual ela sempre discutia com os pais, que diziam que quarto azul era coisa de menino. Tudo era branco, com detalhes em preto e objetos de decoração prateados. Ela nunca gostou muito daquela decoração, mas, queria agradar Ricardo.

Por um momento pensa "Se fosse o Daniel, a casa seria como eu quisesse!". Foi a primeira vez, em muitos anos, que ela se lembrara do grande amor de tanto tempo atrás. Pensa em ligar para ele. Mas, o que diria? Além disso, o número ainda seria o mesmo?

Pega o telefone. Antes de ela começar a discar, fica olhando para o aparelho. Ele toca. Sente seu coração disparar diante daquela coincidência. Pensa que só pode ser Daniel, que eles ainda devem ter aquela telepatia compartilhada várias vezes antes. Não era, era Ricardo. Ele diz que precisa conversar sobre uma coisa importante com ela quando chegar em casa.

Ele chega e encontra Gabriela chorando. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela diz que não agüenta mais. Que tudo o que fez na vida foi errado e que já é muito tarde para tentar começar de novo. Ricardo tentar abraçar sua esposa, mas ela o afasta. Diz que a vida dela é vazia, que ela, em algum momento, perdeu sua essência e precisa reencontrá-la. Ao que Ricardo responde: "Ótimo, pois vá procurá-la sozinha, pois eu quero o divórcio!"

Após uma noite sem dormir e com os olhos inchados de tanto chorar - sem saber se foi pelo pedido de divórcio ou pela descoberta de seu vazia - Gabriela vai para o escritório e encontra um bilhete sobre sua mesa. Aquele papel parecia conter o futuro de Gabriela. Sua vida poderia ser decidida em algumas linhas, podia ser sua promoção (nesse momento, todos os medos da noite anterior se esvaneceram com a probabilidade do reconhecimento profissional). Abriu e leu, com o coração na mão. Dizia:

"Prezada Senhora Gabriela Albuquerque,
Recebemos, de sua colega Priscila Damasceno, importantes informações sobre seu comportamento que não condiz com o que a empresa acredita. A partir de hoje, a senhora pode se considerar desligada desta empresa.
Atenciosamente,

Leandro Oliveira
Diretor de Recursos Humanos"

Sem entender, pensou o que poderia ser e ligou para Priscila, sua melhor amiga e confidente. Ela não atendeu sua ligação. Agora que fora promovida, tinha uma secretária particular que atendia seus telefonemas, evitando que ela tivesse que falar com algumas pessoas. Ligou para um amigo no setor de recursos humanos e descobriu que essas informações se baseavam no fato de ela poder abandonar tudo sem remorsos, com ela fizera com a família e o namorado.

A redenção

Sozinha, divorciada, sem emprego, sem amigos, sem nada, ela volta para sua cidade e vê o que é verdadeiramente belo. Volta com outros olhos à sua cidade, não mais os olhos deslumbrados de outrora. Vê sua família que, apesar da leve discordância em alguns pontos superficiais, sempre se apóiam e se amam, garantindo a unidade de toda a família.

Gabriela é recebida como entusiasmo por seus amigos da juventude. Ela não é vista como uma fracassada, que não soube se adaptar ao mundo da cidade grande, mas como uma mártir do sistema, heroína de não haver perdido sua integridade. Ela poderia ter arranjado mil formas baixas e vis de manter seu emprego, mas não se rebaixou a isso, como fizeram seus colegas.

Gabriela tinha medo de rever Daniel. Ele poderia julgá-la de mil formas cruéis, mas seu julgamento era mais cruel do que os dele. No fundo, ele sabia que tudo isso aconteceria e que não tardaria muito a ela voltar e querer retomar sua vida. Daniel era um dos poucos que conhecia a verdadeira Gabriela, a que não gosta de mudanças e aventuras.

Gabriela ligou para Daniel, aos prantos, e pediu que ele a perdoasse por tudo, que ela havia arruinado a vida de ambos e perguntou se era muito tarde para tentar de novo. Na verdade, ela já sabia qual seria a resposta dele, e foi essa certeza que a fez ter coragem para ligar. Ele disse "Nunca é tarde para tentar de novo. Meu amor me fez esperar por você, pois sabia que um dia você voltaria para mim!"

Casaram-se, compraram uma casa que Gabriela decorou ao seu próprio gosto e fincaram, definitivamente, suas raízes naquela cidade que Gabriela tanto amara a vida inteira.

3 comentários:

Aline Vieira da Mota disse...

Vc me deslinkou! que feio...

Melyanna disse...

Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência!!!!

Precisamos conversar, mas só eu e vc, mudei tanto!!

Bjosss

Anônimo disse...

Gente,meu nome é gabriella e um garoto chamado daniel acabou de falar comigo no telefone.